Contrato Sentimental

2009-11-23 14:25:43

Contrato Sentimental, de Lídia Jorge

Talvez a fazer uma pausa na sua escrita ficcional, Lídia Jorge deu-se tempo e ousadia para pensar o passado, o presente e o futuro de Portugal no contexto de um mundo em mudança profunda e acelerada. Fê-lo num ensaio de 187 páginas a que chamou, muito significativamente, ‘Contrato Sentimental’ e que estruturou em 10 capítulos, correspondendo, cada um deles, a um tema bem preciso:

I - Identidade, II - Mobilidade, III - Autonomia, IV - Comunicação, V - Imprensa, VI - Livros, VII - Língua, VIII - Cidades, IX - Metrópole, X - Mitos.

Se o livro é um todo e como tal se nos oferece à leitura, também é verdade que cada um dos dez ensaios que o compõem pode ser lido autonomamente. Porém, a verdade mais profunda é que cada um desses ensaios recebe a sua luz máxima dos outros que o acompanham!

A palavra «lixo», que a autora diz ter encontrado «muito bem pinchada» numa placa de sinalização na fronteira entre a Galiza e Portugal, entra no primeiro capítulo — Identidade — e mantém-se até ao derradeiro — Mitos. Serve então, à autora, este ‘verso de 4 letras’ para fazer passar muito do que pensa ser o sentimento e o pensamento dos portugueses acerca de si próprios e do seu país. Lê-se na página 9: «A mão deveria ter sido portuguesa, pois a palavra que ali se encontrava, em negro resplandecente, muito bem desenhada, era aquela que já mencionei – lixo. Um verso irradiante que indicava uma fronteira de terra e uma fronteira de alma. Um modo de ser especial, a fazer adeus na superfície branca».

Sob uma aparência de serenidade, o livro surpreende pelo turbilhão de análise, de diagnóstico, de prognóstico, de sentimentos… Daí talvez o título! O título é a recusa da derrota e a proclamação de uma certeza, a certeza de que Portugal existe! O título é uma declaração de amor!

«Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe (…)». São estas as exactas palavras com que Lídia Jorge abre o primeiro capítulo, uma espécie de profissão de fé laica, susceptível de ser demonstrada, e é nessa demonstração que a autora se empenha, a um tempo serena e apaixonadamente, do princípio ao fim. A argumentação sólida desenvolve-se em longas tiradas, mas tal não impede que a poesia (essa força sempre tão presente nos livros de Lídia Jorge!) irrompa, onde menos se espera, em pequenos frescos de grande beleza e profundo significado!

Em síntese, talvez sem correr grande risco de distorção do seu conteúdo, julgo poder afirmar que este livro ensaia respostas a três perguntas de nós mesmos, portugueses, sobre nós mesmos: Quem fomos? Quem somos? Quem seremos? E se às primeiras duas perguntas importa responder com verdade, à última é imperativo responder com lucidez e ousadia, essa ousadia que nos impulsione a um plano de dignidade tal que nos permita libertarmo-nos desse verso-metáfora de 4 letras que se nos cola como uma ignomínia!

Lídia Jorge
Contrato Sentimental
Sextante Editora, Lda.
1ª edição: Setembro de 2009

José Morais

 

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