O que sabe a Cultura acerca da Fraternidade?

2011-07-25 12:25:04

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O que sabe a Cultura acerca da Fraternidade é tema tão vasto que bem poderíamos prolongar este dia pela noite fora, até ser de novo manhã, e com ele iniciar o próximo dia e os dias seguintes, e os meses e os anos que hão-de vir, noite e dia até ao fim das nossas vidas, que nunca este assunto estaria esgotado nem as suas causas ficariam enunciadas. Na verdade, o tema da Fraternidade, em acção e especulação, confunde-se com o decurso da própria vida. Ele é a nossa substância quando não a nossa própria finalidade. Ou por outras palavras – O tema da Cultura, este território impreciso que, à falta de melhor definição, sobeja de todos os outros campos do saber, tem por objectivo a superação da Natureza, e se a sua última pergunta se dirige ao sentido da vida, a primeira surpreende-se com a ordem de relação que os homens estabelecem entre si enquanto semelhantes, quer imaginem que exista um sentido que os vigie a partir de cima, quer suspeitem que não haja, para a sua história, sentido nenhum.

Por isso mesmo, a Fraternidade em relação aos campos abstractos da Metafísica ocupa um primeiro degrau, em materialidade, proximidade, corporização. O desenho do Sentido impalpável acaba sempre por se iniciar pelas feições de um rosto humano e por nele vir a terminar. Para conhecermos seja o que for, precisamos da semelhança. As narrativas da ordem da cultura, que invocamos para falarmos do sentido da Humanidade, falam sobretudo da forma como os homens, em concreto, se uniram e amaram, ou simplesmente se desentenderam. E de tal forma esse longo drama de amor e desamor constitui a ilíada e a odisseia de todo o nosso continuum cultural, que tudo o que podemos representar sobre nós próprios acaba por nele estar contido. E assim, perguntar o que sabe a Cultura sobre a Fraternidade equivale a perguntar o que sabe a Cultura sobre a Humanidade em si.

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Mas, naturalmente, que a questão colocada desta forma, nos dias que correm, obriga a outro tipo de incidências. Obriga a reflectir em concreto sobre o que se pensa acerca da Fraternidade, num momento em que o princípio da partilha dos bens sofre um recuo e em vários aspectos se vive um momento de decepção. Em momentos como este, é natural que se pergunte aos vários sectores da sociedade o que pode cada um deles oferecer para corrigir a deriva. É natural que se pergunte à Cultura o que ela sabe sobre Fraternidade e mais do que aquilo que sabe, aquilo que pode. Como é sabido, Cultura - e neste caso, por certo que estamos no âmbito restrito da Cultura enquanto espaço da criatividade, as diversas artes e as letras - não tem propriamente um saber, ainda que tenha um poder.

Mas que saber? Que poder?

Porque estamos a pensar em Cultura, Criação e Fraternidade, talvez convenha lembrar, de passagem, que se assume que a iluminação do saber, que integra as artes e a literatura, nasce de um turbilhão de combustões e reconhece-se forjada mais do que ao calor da chama, ou da luz, a partir do incêndio. Desde sempre que o texto cultural se reconhece como proveniente dos lugares espúrios onde a treva ocupa a sua dose de percentagem maior. Vem de muito longe a ideia de que no princípio da palavra está a treva e dela nunca a palavra se desembaraça. Um autor quase nosso contemporâneo como Carlos de Oliveira definiu da seguinte forma a origem da palavra do homem não iluminado, a palavra vulgar da pessoa comum da Cultura. Escreveu – “Eis-me no centro do assombro,/ onde não há distinção nenhuma/ entre ser queimado e ser fogo./ No centro do assombro,/ mordido pelas chamas/ e a mordê-las”. Aliás, o espanto e o assombro, são os sentimentos que impelem o texto cultural, aquele que em princípio não busca uma solução prática nem uma doutrina que encurte o caminho, apenas deplora a ausência do caminho e quanto muito insinua-o. Um espaço indistinto no início da palavra da Cultura, um espaço indistinto, na apreensão da própria realidade , de que se reveste a palavra. Um espaço indistinto entre os homens. Dylan Thomas foi eloquente sobre essa indistinção, quando escreveu – “A mão que faz oscilar a água no pântano/agita ainda mais a areia: a que detém o sopro do vento/levanta as velas do meu sudário./ E não tenho voz para dizer ao homem enforcado/ como da minha argila é feito o lodo do carrasco.”

O que significa que o texto cultural não raro é um texto suspeito mesmo quando, no caso da Fraternidade a assume por inteiro. O texto cultural assume-se como provindo da obscuridade, reproduz o turbilhão, e não separa os seres opostos nem na hora do julgamento. Não admira que nenhum texto de Cultura se apresente como exemplo acabado, nem linearmente sozinho. Pelo contrário. Em lugar do texto único, que não admite desvio, nem acrescento nem supressão, o texto de cultura é por definição inacabado, múltiplo, vário, reescreve-se em conformidade com o Tempo que corre, e só dele, do Tempo, é a sua prescrição e aviso, na medida em que vai sendo o seu retrato. O que a Cultura pode saber, ou poder, sobre a questão da Fraternidade, os seus limites a as suas potencialidades, passa por este território imperfeito.

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Ainda que de passagem, talvez também valha a pena lembrar que todo o retrato que o texto da Cultura faz da realidade é um retrato transfigurado pelo espanto e pelo assombro em face da desordem que a Natureza com seu ciclo de construção/ desconstrução, vida e morte, impõe, para lembrar também que é o Mal como interrupção do Bem, que mais perturba e mais questiona. Que não é propriamente o percurso harmonioso o que mais ocupa o centro da criatividade, mas antes, o desfecho perturbador. Repare-se como o mito bíblico em torno da Fraternidade que mais ocupa a cultura artística não é a parábola da Mulher Samaritana, que tanto tem a ver com os nossos dias, mas sim o mito antigo de Abel e Caim recuperado do Génesis.

Aliás, de tal forma essa relação se transformou na metáfora do distúrbio fratricida, que grande parte da narrativa europeia e ocidental a tem por referência. Não admira. A Literatura vive do oxímoro, a figura de estilo que mistura os opostos para de entre eles se retirar necessariamente um terceiro sentido. Por isso, quando o tema do assombro é a Fraternidade, não é na descrição da harmonia que se encontra o ponto de partida, é na narrativa do seu contrário. E o papel do Criador aparece então, inevitavelmente, na dança das perguntas que não têm fim. Palavras de William Blake em The Ghost of Abel pairam sobre inúmeros relatos ficcionais que o referem. A passagem “Caim foi construído com Sangue Humano, não com o sangue dos Bois ou das Cabras” é recorrente como referência emblemática sobre a natureza da espécie. A literatura dos campos de concentração nazis tem Caim como tutela. Caim atravessa os livros de Herta Müller, a Prémio Nobel do ano passado. Mário Vargas Llosa até utiliza a afirmação acima citada como epígrafe de um dos seus livros, mas poderia ser o emblema de toda a sua obra, que sempre defende o entendimento entre irmãos, enquanto denuncia as artimanhas da traição. Entre nós, Caim, o último livro de José Saramago, reactivou a questão, de forma radical, já que não só culpabiliza a divindade, como transfere a sede do crime do criado para a natureza do próprio Criador, reservando para os homens o único destino possível – a imperiosa fraternidade entre si, uma vez que a Humanidade, conforme a sua narrativa, sempre ficará sozinha. E assim, mais uma vez, por oxímoro, e por paradoxo, o tema da Fraternidade se escreve ao contrário, através do tema do fratricídio. O que significa que avaliar, nos dias que correm, quanto a Cultura sabe sobre a Fraternidade, implica estar atento às metáforas que os contemporâneos criam, e estimar a forma como agem, por antítese, sobre aqueles que a elas têm acesso. Ao longo do tempo não raro têm agido de forma poderosa.

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Por exemplo, o que deve a Fraternidade à leitura de “Os Miseráveis”, no período de contrastes sociais da pós revolução francesa, ou o amaciamento nas relações interpessoais às páginas de “David Copperfield” na desordem da Revolução Industrial inglesa, ou a compaixão contemporânea no rasto da obra de Camus, é impossível quantificar, mas é fácil de avaliar como importantes, se não decisivas, na construção da ideia da Fraternidade. Nesta circunstância, até soará a truísmo lembrar como o texto cultural pode agir na ordem do próprio sistema. O sistema colonial europeu, por exemplo, foi abalado por uma obra de escassas cem páginas, “O Coração das Trevas”, esse livrinho publicado disfarçadamente entre outras narrativas breves, no ano de 1902, e no entanto conseguiu denunciar uma ordem que até hoje ainda não parou de definir e atar a relação de colonizados/colonizadores. “Ébano”, do polaco Kapuscinski, ou “Exterminem todos os Selvagens”, do sueco Lindqvist, são apenas dois títulos de toda uma constelação de textos publicados duas escassas décadas atrás e que continuam a desmontar os processos da degradação pela opressão dos fortes sobre os fracos no seio dos sistemas convencionais. Ainda recentemente, através de uma história de negreiros contada pelo escritor francês Laurent Gaudé, o jovem autor aponta à nossa consciência uma parábola inquietante sobre o outro lado da fraternidade, ou o remorso por não cumpri-la. Em “Noite Dentro, Moçambique”, Gaudé faz evadir vários escravos de um barco negreiro, no porto francês de San Malo. Ao contrário dos seus companheiros de evasão, um deles nunca será recapturado, ficando à solta pela cidade. Pior do que isso. Cada noite o desaparecido vai pregando na porta do capitão do barco, um dos dedos das suas mãos. Um dia, quando se pensa que o pesadelo terminou, pois já haviam sido pregados todos os dedos da mão, aparece o décimo primeiro dedo para dizer que a perseguição do ofendido não terá fim Estes são textos sem os quais podemos passar, mas se acaso os lermos não seremos mais os mesmos. No seu conjunto, eles modelam a consciência e os caminhos que apontam, em última instância, são os da Fraternidade. Por exemplo, o que devemos a autores como Milan Kundera em termos de Fraternidade? Quanto deve a queda do Muro de Berlim à história de Teresa e Tomás, e a seu propósito todas as reflexões sobre o sentido da História que constroem “A Insustentável Leveza do Ser?” A denúncia da mentira dos sistemas que oprimem os indivíduos quanto lhe deve? O poder da imagem truncada com a qual se inicia “O Livro do Riso e do Esquecimento” não é mensurável, mas ela ajudou a decompor um sistema opressor de longuíssimas décadas. Só por esse livro, a história da Fraternidade europeia deve ao seu autor uma página de agradecimento que ainda não foi escrita. De algum modo, a libertação do espaço europeu que se lhe seguiu, e a utopia que a seguir se viveu são devedores deste tipo textos a que, neste contexto, chamamos de textos de Cultura.

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Todavia, o que importa referir neste momento é que, de súbito, passadas duas décadas, existe uma outra realidade. Para simplificar, ela enuncia-se do seguinte modo - Quando pensávamos que o progresso material era ilimitado, que as relações humanas caminhariam no sentido de uma Fraternidade à escala global, que os estados seriam parceiros, amigos e protectores das nossa vidas, que os bancos eram o cofre inesgotável de um pai rico sem limites, que a juventude era o contravalor para um futuro que não conheceria nem velhice nem decadência, quando pensávamos que o cartão de identidade e o passaporte iriam ser documentos dispensáveis, substituídos com vantagem pelo simples cartão de crédito, que poderíamos andar livremente de aeroporto em aeroporto à volta da Terra, com a mesma facilidade com que se vai de autocarro de apeadeiro em apeadeiro, e pensávamos que as fronteiras iriam ser abolidas, que as fronteiras não passavam de linhas desenhadas a poder de espadas, e que as bandeiras nacionais não passavam de panos encharcados de sangue, e os hinos nacionais, palavras de ódio escritas no meio das batalhas, de súbito, tudo se alterou. Estamos diante de uma realidade que só alguns tinham previsto, mas esses não eram bem vindos.

Pois é verdade que ao longo das últimas décadas as populações se tornaram nómadas, mas a maior parte daqueles que hoje se deslocam não o fazem pelo prazer de viajar, como supúnhamos, e sim para sobreviver, e muitos morrem sem chegar. É verdade que a mobilidade à volta da Terra é praticamente ilimitada, mas, ao contrário do que se pensava, em toda a parte se levantam fronteiras, e a vigilância é tão grande que somos revistados até aos ossos e à íris. E isso, porque é possível morarmos todos lado a lado, vindos de toda a parte, mas sendo vizinhos por partilha dos quintais, não estamos preparados para sermos vizinhos ideológicos. E de repente as dívidas soberanas de que nem ouvíamos falar ameaçam-nos com um credor que virá bater-nos à porta com uma pasta para nos despojar de tudo, até mesmo do que não podermos vir a ter. E assim por diante. Dá que pensar. De súbito, sabemos que há mais pobres, haverá mais pobres, e pior do que isso, está instalada a retórica que conduz à instalação do medo.

O que sabe, então, a Cultura sobre a Fraternidade? E o que pode?

6.

Narrativas de toda a natureza, ao longo dos últimos anos, têm anunciado uma espécie de terror branco que a lógica de uma globalização desacautelada vinha a instalar. O grande tema que une os autores mais poderosos da actualidade tem sido esse – a criação de ambientes que se assemelham por vezes a sombras de holocaustos revisitados. Eu diria que muitos textos da Cultura anunciaram este futuro como um local de desmontagem. Provavelmente metafóricos, excessivos, ampliado sem relação à realidade, como é próprio da natureza do artístico e do literário. Grandes obras escritas com raiva como “A Virgem dos Sicários” de Fernando Vallejo, ou “Cidade de Deus” de Paulo Lins, e respectivos filmes, e centenas de outros, são obras de terror e compaixão que descrevem microcosmos, cujos modelos de desordem parecem estar prontos a alastrar exponencialmente um pouco por toda a parte. Só o futuro fará o balanço sobre o saber, e o poder, que os textos de Cultura destas últimas décadas tem ou não tem exercido sobre a sociedade e cada um de nós. O seu poder de antecipação, o seu poder dissuasor.


Mas o que mais ensinam os textos de Criação, aqui tomados por simplicidade, por textos de Cultura, é que o homem que emerge desses textos é um homem avisador, e logo um homem esperançoso. O homem esperançoso não é necessariamente o homem que se diz optimista. Nem o homem que ilude a dúvida, ou que evita o confronto e saltita confiante sobre o portal do presente, entregando-se ao sabor do acaso. O futuro contém um projecto e é feito com o contributo do nosso pensamento informado. O homem esperançoso é sobretudo aquele que, na posse dos dados reais, ultrapassa o medo e fala por si e pelos seus companheiros se acaso eles não falam. O homem esperançoso confunde a causa dos outros com a sua. Ora o que mais se depreende do tipo de textos em questão, ainda que recolhido por aqui e por ali, de forma sincopada e por vezes difusa e imprecisa, é que dentro de nós não existe apenas o impulso do facínora, o fratricida, como muitos freudianos, mais do que Freud, o propalaram. Pelo contrário, dentro de nós, tal como os textos mostram, existe um ser que se constrói para a partilha e para o amor. Pelo menos, eu mergulho a mão nos textos e encontro esse recado por toda a parte. Mergulho a mão nos textos e encontro enunciada, de várias formas, a pergunta de Else Lasker-Schüler sobre a questão da paz e da fraternidade – “Não faz o meu coração fronteira com o teu? E a sua comovente resposta - O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces”.

É a certeza de que este discurso existe, apontando para o futuro, que nos dá confiança.

Muito obrigada.


Lídia Jorge
Fátima, VII Jornadas da Pastoral da Cultura
17 de Junho, 2011

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