O grande romance do 25 de Abril

2014-05-30 15:53:19

Quase todas as revoluções acabam, mais cedo ou mais tarde, por ter o seu grande romance. O que me vem de imediato à mente, em relação ao livro aqui em foco, é A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, no qual se transfigura a libertação radical de dois povos de tradições bem diferentes, franceses e ingleses nos séculos XVII E XVIII, seguida do terror, se não na ilha natal do escritor, certamente no continente, que raramente, nessas viragens históricas, nunca deixou de ser selvagem. A nossa revolução, todos o sabem, ficou-se, felizmente, só pela primeira fase, a de alegria por entre a confusão radical de alguns meses, e depois a consolidação da nossa democracia, hoje subvertida e manchada. Em Portugal esperamos nada menos do que quarenta anos para que o 25 de Abril de 1974 fosse artisticamente lembrado na grandeza de páginas tão brilhantes como o seu próprio referencial político e humano naqueles dias de risos, lágrimas e a euforia de finalmente avistarmos a terra prometida depois da nossa longa caminhada na escuridão do deserto que acabávamos de atravessar. Valeu a pena. Os Memoráveis, de Lídia Jorge, publicado recentemente para coincidir com a celebração dos 40 anos da revolução mais doce e civilizada de toda a história europeia, não será só um grande romance sob qualquer leitura que dele se faça ou sob qualquer perpspectiva que se adopte em termos analíticos e formais, desde a sua estrutura jornalística investigativa às suas múltiplas vozes e linguagens, aos olhares diversos de alguns dos seus protagonistas principais aqui ficcionados e sob alcunhas meio estranhas, quase todos eles ainda entre nós, alguns deles integrados em associações profissionais, de solidariedade e de intervençãpo cívica. O romance de Lídia Jorge é, para além de todo o prazer que só uma grande obra de ficção oferece aos seus leitores sérios e sem preconceitos "ideológicos", será para sempre uma das mais belas propostas nas nossas letras para uma reflexão político-histórica e cultural, mas sem rancor ou qualquer jacobinismo, em que as acções daquela madrugada nas ruas de Lisboa foram o perfeito retrato de alma dos seus heróis desprendidos de tudo, menos da decisão, acontecesse ou que acontecesse, de devolver à nação lusa a sua dignidade total, que só em liberdade pode ser, foi, e é vivida. Não é possivel ler este livro sem emoção nem saudade – o que resulta, creio, danossa vivência actual por entre o regresso avassalador de uma outra escuridão presente. Os Memoráveis não é só uma peça de arte literária – é um acto de redenção cívica ante a Mentira Ideológica que de novo nos oprime de modos menos evidentes, mas oprime e rouba-nos a cada dia a noçâo de povo livre e soberano.
Antes de mais, não se trata de um romance "ideológico" à maneira neo-realista. Os Memoráveis é de todo admirável até pela sua "génese" também fictícia: uma jornalista portuguesa da grande cadeia nacional americana CBS, especializada na cobertura de guerras, reside em Washington, quando não está nos campos de selvajaria nalguns países do Médio Oriente, e tem como chefe Robert Peterson, um afilhado de um destacado embaixador de Washington, de nome naturalmente fictício aqui, mas que reconhecemos de imediato como sendo a o alter-ego de Frank Carlucci. Em fins de 2003, acabado de regressar da América Latina, o seu outro continente de intervenção, oferece um beberete em sua casa, para o qual a protagnista- narradora, Ana Maria Machado, ela própria filha de um famoso comentador na imprensa lisboeta, e propõe a Peterson, chefe de secção da grande estação televisiva, uma série sobre as revoluções "felizes" das últimas décadas, começando pela Revolução dos Cravos, como contraponto a uma história demasiado violenta e ensopada em sangue noutras partes, historicamente e nos nossos dias, uma série denominada A História Acordada, que incluiria outros grandes abalos pacíficos, desde a queda do Muro de Berlim até às mudanças nos países do leste europeu, que ele diz ter sido o resultado ou consequência dos dias de Abril em Lisboa. O embaixador convence os dois a ir em frente com o projecto, pois recorda aqueles dias com o maior carinho e respeito pelo povo português, dizendo que se Ana Maria espreitar por entre as pedras da calçada da nossa capital ainda encontrará os restos das flores que coloriram aqueles dias e os cinco mil soldados que derrubaram sem tiros a mais antiga e prolongada ditadura da Europa ocidental. "O padrinho [o embaixador] falava com vivacidade contida, como se o país que invocava fosse uma pessoa amada". Ana Maria Machado regressa, pois, a Portugal e à casa do pai (enfrentando de novo a instabilidade emocional na sua perturbada relação com ele e com a sua própria identidade entre dois países e duas culturas bem diferentes) que se havia despedido do seu jornal, tentando António Machado agora esconder dela a sua incapacidade para se ajustar ao "novo" Portugal, e não só ao mundo do jornalismo- espectáculo. Foi um dos conspiradores de Abril, e na noite de 21 para 22 de Agosto de 1975 tinha-se reunido com grupo de capitães e outras figuras, hoje bem conhecidas por nós todos, num restaurante da baixa, aqui de nome Memories. Estava em causa o rumo da revolução, a luta entre os radicais e os moderados.
Uma fotografia do grupo tinha sido tirada, com alcunhas identificando todos os participantes, e emoldurada por ele, colocada no topo de uma das suas estantes, fora da vista de quase todos. A filha chega dos Estados Unidos e retira-a sem ele saber, decidindo que uma visita e entrevistas à maioria dos nela presentes seria a estrutura do seu documentário sobre o golpe bem sucedido. O que se segue é uma brilhante polifonia dos entrevistados, que inclui generais, incluindo O Campeador, que ninguém deixará de reconhecer como sendo Otelo de Saraiva de Carvalho, e que o embaixador recorda como "...aquele que fez o plano do golpe de Estado, e ao fim e ao cabo o executou ponto por ponto. Genial. The portuguese red oak, you know?" Não se enganem com estas minhas notas sobre Os Memoráveis – o ponto de vista ficcional, reinventado aqui, é inteiramente português, é o imaginário dos participantes directos no golpe, incluindo até o do fotógrafo que entraria no Quartel do Carmo na hora da rendição de Marcello Caetano e alguns dos seus colaboradores. Que é uma personagem aqui simultaneamente ficcional e por nós lembrada na realidade, um americano outrora embaixador dos EUA em Lisboa nas horas mais críticas do nosso processo revolucionário, ex-CIA, que desperta numa jornalista imaginária o interesse histórico pela memória da nossa libertação, quer dizer o quê, e sobre quem? Creio que significa algo sobre nós próprios, e creio ainda que significa e acusa ainda mais tudo o que vivemos nos dias correntes. A narrativa começa em 2003 e vem até 2012, até ao coração dos presentes dias de chumbo e desesperança generalizada, os dias de governantes que demosntram toda a sua ignorância e certo desprezo peplos dias de alegria e dor que nunca viveram, ou sequer estudaram, é de crer. "Aliás, juntar a imagem do padrinho [o embaixador americano] – diz Ana Maria no encerramento de Os Memoráveis, e descrevendo a estrutura narrativa do seu documentário memorial – sentado no seu cadeirão, numa tarde de Primavera, na Glassy House, a recordar a intervenção no Senado, e El Campeador correndo sobre a alazão numa praia portuguesa, unidos na mesma sequência, é um tipo de ousadia que a história está sempre a engendrar. Porque não poderá acontecer num documentário? Em Lisboa de setenta e cinco, eles eram adversários, eles colocavam-se em lados opostos da conspiração, e provavelmente um e outro, pela calada da noite, ameaçavam-se de morte, ainda que de dia almoçassem juntos e jogassem ténis vestidos de branco". Ousadia foi a dos Capitães de Abril e de todos os que os acompanharam na rua, pois no mundo da política e da diplomacia nada nos pode surpreender mais, muito menos os acontecimentos daquela época. A revolução portuguesa foi única a todos os níveis, a sua generosidade não tem par reconhecível nos tempos modernos. As únicas mortes em Lisboa vieram, significantemente, dos torcionários do antigo regime, não das chaimites ou das espingardas dos nossos libertadores. É claro que a figura de Salgueiro Maia, aqui sob a alcunha de Charlie 8, recordado na narrativa pela sua viúva, ocupa algumas das páginas mais comovidas, por asim dizer, de Os Memoráveis. Ou então somos nós, os leitores, que nos comovemos irremediavelmente com a sua memória. Mereciam todos eles, e merecíamos nós, um romance como este.

Lídia Jorge, Os Memoráveis,
Lisboa, D. Quixote, 2014.

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