Grande Prémio SPA-Millenium bcp

2007-11-05 17:28:17

Como reagiu quando soube que tinha sido escolhida para o Grande Prémio SPA-Millenium bcp?

Com muita surpresa. Eu tinha a ideia de que no ano passado este prémio havia sido atribuído ao Mário Laginha e pensava que se destinava à Música. O Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, quando me deu a notícia, deve ter sentido o meu embaraço. Mas por certo que também sentiu a minha alegria.

O que representa para si a atribuição deste prémio?

Um prémio de carreira é um prémio de revelação dado mais tarde. Pessoalmente, não quero ver nesta atribuição outra coisa que não seja um estímulo por aquilo que ainda tenho de inicial para fazer. A minha satisfação prende-se, sobretudo, com isso. E não escondo que me toca o facto de ter sido atribuído à Literatura, provavelmente o ramo mais discreto do campo autoral.

A sua carreira começou com a publicação de “O Dia dos Prodígios” em 1980, certo? Desde então quantos romances escreveu? E além de romances?

Nas badanas dos livros constam nove títulos de romances, e tem de estar certo. Publiquei ainda recolhas de contos, uma peça de teatro, e textos de vária natureza que andam por aí, incluindo crónicas, ensaios, testemunhos, e outras narrativas sem catalogação.

Que balanço faz da sua carreira?

Tenho dificuldade em fazer um balanço dessa natureza. Possivelmente este seria o momento indicado para fazê-lo, seria uma espécie de resposta ao reconhecimento por parte de um júri que me atribuiu este prémio. Mas a verdade é que eu sinto dificuldade em fazer esse exercício de retrospecção. Prefiro adiar para mais tarde. Escrevo livro após livro, envolvida com a matéria de cada um deles. A escrita de cada livro é uma espécie de acrescento ao anterior. O meu último livro continua a ser um prolongamento de “O Dia dos Prodígios”. Uma forma de dizer que nada está definido.

Se tivesse de definir a sua obra, o que diria?

Diria que pretende ser o testemunho de um tempo. Uma longa crónica do tempo que passa. Calculo que pareça muito ambicioso defini-la assim, mas não o posso negar. Às vezes penso em tom diferente – penso que é uma forma de conhecimento, e apesar de essa ideia ser abstracta e logo atractiva, essa é só a parte que me diz respeito. Mas se alguém me disser, por exemplo, que fica a conhecer melhor o nosso país e suas contingências mentais a partir dos meus livros, então isso virá ao encontro da minha ambição.

Como escritora, o que a move, o que a preocupa?

Move-me a ideia de que suspeitamos estar sozinhos sobre a Terra, e no entanto não somos fraternos. Move-me a ideia de que podemos estar acompanhados, e ainda assim, de igual modo, continuamos a não ser fraternos.  Para tentar dirimir esta questão, não tenho outro meio além das palavras. 


Para si qual o papel da Literatura no mundo actual?

Continua a ter o papel que sempre teve, desde que foi inventada como o grande enfeite da linguagem humana – Não deixar as pessoas caírem no logro dos sentidos únicos. Ao contrário do que se pensa, por causa da crise do livro, a Literatura não passa por nenhum tipo de definhamento. Ela existe, nas suas várias disciplinas, para nos tornarmos mais capazes de desfrutar do mundo, e ao mesmo tempo para sermos capazes de ter mais problemas com ele, como diz Vargas Llosa. A Literatura não serve para simplificar a vida, serve para aumentar o número de sons do nosso piano, e tocá-lo com mais dedos.

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