Prémio SPA – Millenium

2007-11-08 14:31:53

Esta é uma noite maravilhosa.

Uma noite de celebração da Arte, interpretada por artistas, para os amigos dos artistas, no lugar ideal, a verdadeira casa da música. Oxalá que a Sociedade Portuguesa de Autores, a grande curadora dos direitos dos criadores, possa repetir esta noite por muito tempo. Isso significará que o mundo que se aproxima permitirá manter um mínimo de laços justos, entre quem cria a obra e quem a utiliza. E oxalá que a Instituição que a patrocina se mantenha fiel e unida no seu compromisso de apoio na promoção daquilo que nos autores é a sua parte relevante, a criativa. Sempre que nos reunimos, uns e outros, em noites como esta, tendo a Arte como meta, mesmo sem darmos por isso, acabamos por nos juntar à bela utopia de Jorge Luís Borges quando se referia a “Uma sociedade secreta, benévola…” que “surgiu para inventar um país”. É bom dizê-lo em voz alta - Pelo menos, aqui dentro, durante duas horas, essa utopia torna-se possível.

Para celebrá-la de forma simbólica, foram conferidos dois prémios. O prémio para os jovens autores, atribuído na área da Música. O outro, atribuído na área da Literatura. Não posso deixar de sublinhar quanto me impressiona que, este ano, tenha sido escolhido o mundo dos livros e da Literatura como a disciplina para ficar em evidência. Sabe-se como hoje em dia o universo dos livros se tornou discreto. E como no próprio mundo dos livros, os da Literatura se tornaram mais discretos ainda. O sinal que parece ser dado pelo júri que este ano escolheu a Literatura para premiar, não pode deixar de ser o da crença naquilo que é a sua essência e função crucial – a ideia de que a Literatura, apesar da sua discrição, continua a ocupar um lugar central no campo da criação, já que a sua matéria-prima é a da linguagem viva. A linguagem dos múltiplos significados. Aquela cuja prática não deixa que as pessoas caiam no logro dos sentidos únicos.
No logro dos sentidos únicos, das imagens únicas, das músicas estereotipadas que transformam os homens comuns em figuras de obediência, porque subtraídos à crítica e à originalidade. A crença de que a literatura existe, nas suas várias formas, para nos tornarmos mais capazes de desfrutar da vida, e sermos ao mesmo tempo mais capazes de problematizar o mundo. A ideia de que hoje como sempre, a literatura é um longo texto que se redige contra o homem simplificado. Sabe-se. Mas ainda assim, não deixa de ser apreciável que uma instituição que lida com a liquidez dos direitos de autor, contemple uma das áreas que, provavelmente, menos aufere e menos rende. Isso significa que a Sociedade Portuguesa de Autores continua a assumir a vertente de carácter cultural que sempre incorporou no seu percurso. Dirigindo-me à pessoa do seu Presidente, quero sublinhá-lo de viva voz.

E claro que me sinto feliz por ter sido a distinguida.

Repito aqui a emoção que senti ao ter sabido, pelo Presidente da SPA, que um amplo júri me havia premiado. Muito me gratifica e muito me honra. Pessoalmente, este prémio vem dizer-me que alguma coisa do que tenho feito na vida tem um sentido, e isso serve-me de estímulo. Conforta-me a ideia de que os meus livros podem interpelar leitores cultos e sensíveis.

Mas também devo dizer que me alegra particularmente que se trate de um prémio de percurso e não de um prémio de carreira. Na verdade, as palavras têm os seus ecos íntimos próprios, e eu não me sinto a fazer uma carreira, eu só faço um caminho. Uma carreira pressupõe uma estratégia, um balanço permanente, metas à vista, como a palavra diz, uma corrida para algum lugar. E eu tenho escrito desde pequena, caderno após caderno, livro após livro, mas conforme aquilo que o meu imperativo de resposta, na ocasião, determina. Provavelmente não se nasce para um fim, ele cria-se pela ilusão de que existe. Eu vivo com a ilusão de que pertenço ao grupo daqueles que só nascem para narrar porque nasceram para ouvir. E mais, suspeito que a Literatura como as Artes em geral, quando se fecham em si, perdem de vista a ligação com a sua essência, que é o mundo. Mas quem coloca o mundo acima de si, nunca tem nada assegurado, em termos de carreira. De certo, certo, só tem o seu olhar trocado com os outros, e o seu próprio caminho em aberto. Foi assim desde o meu primeiro livro, “O Dia dos Prodígios”. Escrevi-o para que não se perdesse a memória de um punhado de gente que significava um país. Até hoje, nunca mais deixei de escrever esse livro.

Permitam-me, pois, que nesta noite tão marcante da minha vida, perante tantos amigos, e contagiada pela juventude do meu colega galardoado, dedique este prémio aos jovens criadores que se iniciam agora e pertencem, por temperamento e visão, ao meu “team”. Penso nelas e neles, esses do meu género, para lhes desejar a lucidez e a coragem de nunca desistirem de proporem emendas à vida, através da Escrita e da Arte. Essa é a única deontologia que nos assiste. A única coerência que vale a pena. E até pode ser, que por uma feliz coincidência, um dia, quando menos esperarem, aconteça nas suas vidas, uma noite tão memorável quanto esta.

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