Lídia Jorge

Lídia Jorge em África: a Guerra Colonial e a escrita

Biografia · Lídia Jorge

Entre o fim dos anos 1960 e a Revolução dos Cravos, Lídia Jorge viveu em Angola e Moçambique. Professora do Ensino Secundário, acompanhou o marido, oficial do exército, durante o último período da Guerra Colonial — uma experiência que guardou em silêncio durante anos e que viria a transformar-se num dos territórios centrais da sua ficção.

À distância de Lisboa, a jovem professora observava a guerra do lado de dentro: os quartéis, as comunidades de mulheres que esperavam, as paisagens imensas e a violência quotidiana de um império em colapso. Foi essa matéria, decantada pela memória, que deu corpo a A Costa dos Murmúrios (1988), o romance que a tornou incontornável.

A Costa dos Murmúrios: a guerra contada pelas mulheres

O romance desloca o ponto de vista habitual da narrativa colonial: quem conta a história é Evita/Eva Lopo, uma mulher de vinte anos recém-chegada a Moçambique para se encontrar com o noivo, tenente em comissão. Através do seu olhar — primeiro ingénuo, depois ferido — vemos a loucura da guerra, o racismo da sociedade colonial e o silenciamento das mulheres.

Costa africana ao entardecer com palmeiras e o mar calmo de Moçambique

O livro obteve grande repercussão internacional, especialmente em França, e foi adaptado ao cinema em 2004 por Margarida Cardoso, num filme que fixou ainda mais a obra no imaginário coletivo português. Foi também a partir deste romance que se começou a discutir abertamente, na literatura portuguesa, o papel das mulheres na guerra colonial.

O regresso a África em Lobito Bay

Quase três décadas depois, Lídia Jorge voltou ao tema em O Amor em Lobito Bay (2016): dois casais que, cinquenta anos antes, se tinham encontrado em Angola reencontram-se em Lisboa para acertar contas com o passado. O romance cruza a memória da guerra com a Angola contemporânea do petróleo e das novas fortunas.

  • 1968–1974 — vivência em Angola e Moçambique durante a Guerra Colonial;
  • 1988A Costa dos Murmúrios, a guerra vista por uma mulher;
  • 2004 — adaptação ao cinema por Margarida Cardoso;
  • 2016O Amor em Lobito Bay, o reencontro com o passado colonial.

Nenhum outro escritor português da sua geração regressou tantas vezes, e com tanta lucidez, ao último império colonial europeu. Para Lídia Jorge, escrever sobre África nunca foi nostalgia: foi uma forma de fazer a verdade histórica passar pela ficção.

ObraAnoLigação a África
A Costa dos Murmúrios1988Guerra Colonial em Moçambique, narrada por uma mulher
O Amor em Lobito Bay2016Memória de Angola e reencontro cinquenta anos depois
A Costa dos Murmúrios (filme)2004Adaptação de Margarida Cardoso

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